…que fosse vida
E quando já não mais acreditou, exatamente quando desistiu…
Não desistiu de uma vez, foi lento seu processo. Nos momentos de fraqueza tentava, em vão, recuperar sensações dos momentos de paixão, abandonava o intento tão logo percebesse um corpo já sem memória. Preencheu-se de boas conversas, de botecos, de risadas e disse NÃO ao Amor.
Seguia alimentando-se de pequenas e deliciosas alegrias, ingeridas a boas goladas nos botecos da cidade, em papos intermináveis sobre arte e política. Sabia aproveitar os prazeres de uma cama vazia. Quis planejar um futuro sem mais investidas no Amor e, protegida por um edredon, sonhara com um canto seu, que tivesse sofá vermelho na sala, no quarto um colchão sem cama – não suportava os limites impostos por ela -, pela casa os livros da vida toda, um gato como companhia, na cozinha a cafeteira e uma coleção de canecas bacanas. Era só! Não deixou espaço para mais nenhum parágrafo depois do ponto final.
Mas o AMOR, esse filho da puta, chegou e foi logo rasurando todo o texto, puxando tópicos, fazendo planos. Ela, justo ela, que já havia esperado tanto. Em sábados ensolarados vestia-se para Ele. Eram coloridos os vestidos, o cabelo solto, as sandálias lhe adornavam os pés delicados… Esperava-o para o almoço e desistia tão logo percebesse a tarde chegar e a fome apertar. Em noites de sexta-feira se aprontava perto de oito da noite. Em algumas para ir ao cinema, em outras para um jantar e em outras ainda, quando sentia vontade de dançar, lhe esperava para irem a um samba qualquer. Ele nunca buzinou em sua porta, sua campainha nunca tocara … Em uma espécie de ritual desmanchava o cabelo, tirava toda a maquiagem, entrava nas roupas de guerra . As mais largas, as mais confortáveis, no pé calçava o all star vermelho e era com a mochila nas costas que seguia para uma noite inteira na bodega do bairro.
Finalmente o cavalheiro atrasado chegou e foi sem alarde. Está com ela agora e a faz melhor, apesar do medo dela, do jeito ranzinza que trata o atraso dele. Deixara os planos de uma vida sozinha para construir com ele uma vida , que fosse intensa, que fosse morna, que fosse algumas vezes preta e outras branca, que fosse também colorida, que fosse quente e fria, que fervesse , que fosse vida.
3 – Valter em: Final de ano e tormentos de família
Passei o dia inteiro com a voz dela ecoando em meus pensamentos mesmo sabendo que ela faz com essa intenção.
– Filho, pôxa vida, seus irmãos estão tão longe… Você que seria o único que poderia…Olha, eu e seu pai estamos velhos, e talvez não tenhamos muito tempo e…
Ela sempre teve um efeito terrível sobre mim; talvez seja a única mulher que me faça mudar de planos. o problema é que desta vez estava tudo combinado, todo mundo de saco cheio de Natal em família e este ano ficaria tudo porminha conta. Justo eu que não faço a mínima ideia de como preparar essas coisas.
Nem um enfeite neste apartamento, nem um pisca-pisca irritante, uma árvore então… Meu Deus! E tem a comida, os presentes, o amigo secreto. Ah, e tem o presente da Claudinha!
É, pensando bem, se eu tivesse ido pra Cerquilho, eles estão velhos e… Não dá pra mudar o combinado agora, é ridículo pensar que esse possa ser o último natal dos velhos, afinal está tudo bem com eles.
Encomendo uma árvore de Natal, deve ter algum serviço de entrega, peço também aquela ceia pronta que o restaurante aqui embaixo anunciou. As bebidas tenho aqui mesmo. É isso, é isso - repete andando de uma ponta a outra do corredor.
[o telefone]
– Valtinho, você pelo menos almoça conosco amanhã, né filho!
Era a única coisa que eu poderia ceder naquele momento e, depois de uma noite inteira com o pessoal da agência, ter que viajar por que: Ai Valtinho, mamãe tem saudade! Ela me trata como o mesmo moleque que saiu do interior há 25 anos. O problema é responder como o Valtinho dela…E eu faço isso.
No shopping compro algo pra Cláudia, acho que um perfume. Eles chegam às nove, a ceia e o garçom às oito, a árvore compro no shopping…Ainda tem ração para Laura.
2 – Valter em: Por engano
*Ficção
Cheguei, tirei os sapatos, sentei no sofá e parei. Pretendia continuar assim até que algum dos meus sentidos fosse desapertado.
Divaguei que, talvez, a caminhada matinal estivesse me fazendo mal. Foi depois do chek-up a semana passada, dei ouvidos as regras de bem-estar do médico e comecei com essa bobagem. Além do cansaço mental ele incluiu na minha rotina o físico. Não precisava de mais nada.
A Laura espreguiça no centro da sala. Engraçado, ela parece estar como eu, esperando que algo a desperte. Está sentada em frente à porta, ao seu lado tem um envelope que só agora percebi. Era pequeno, em papel pardo, ali do sofá enxergava a letra corrida que apontava seu remetente.
A preguiça era tanta que sem sair do lugar tentava adivinhar quem teria enviado aquilo. Uma carta. Esse tipo de comunicação excluía grande parte das pessoas que conheço, pois estas teriam mandado um e-mail ou ligariam.
A gata continuava estática. Era sexta-feira a faxineira limpou o apartamento, deixei uma lista das coisas que ela não poderia mexer. Até onde pude conferir ela parece ter obedecido.
Lembrei que poderia estar com fome. Olhei o telefone sem fio na mesinha ao meu lado, liguei para pizzaria anunciada no folder que estava ali.
Em 20 minutos a campainha: era a pizza de atum com catupiry e o suco de uva. Paguei o entregador , agradeci, peguei a comida, entrei e pensei novamente na carta.
Acabei logo com o mistério que não mais me entretia. Abri rapidamente o envelope e corri aquelas linhas mecanicamente. Letra feminina, falava de um relacionamento que definitivamente nunca fiz parte. Ao final o nome: Pedro. Voltei ao envelope, apto 319 era para o vizinho de cima. O porteiro confundiu-se. Alívio… A patética carta de amor não era para mim. Fiz um bilhete explicando o acontecido ao destinatário e anexei à carta, em seguida interfonei para o Camargo da portaria:
– Quem é?
– Ô seu Valter é o Camargo.
– Camargo,você entregou por engano uma carta do 319 no meu apartamento.Você pode subir para ver?
Valter Cavallari
*A página Ficção do Feijão com Farofa nasce para suprir a necessidade de publicar textos resultado de um projeto literário do qual fiz parte há alguns anos. Desse projeto, ficaram textos inéditos e a vontade de continuar a desenvolver histórias sobre o personagem criado naquela época. Espero que gostem e acompanhem as histórias do Valter Cavallari, um publicitário de meia idade, solteiro convicto, reclamão, mal humorado. Acompanhem!
1 – Valter em: Dia de folga
*Ficção
Minhas manhãs se tornaram um caos desde que me tornei publicitário. Hoje acordei com o Camargo, o porteiro, no interfone.
– Ô seu Valter tem um elemento aqui em baixo querendo falar com o senhor. Ele disse que veio buscar uma encomenda, um paletó que o senhor havia prometido a ele.
– O quê ? Paletó ? Camargo eu nem isso…
– O senhor desculpa incomodar, mas o sujeito insistiu muito.
Em um suspiro pedi pra que o “elemento”, “sujeito”- não suporto esse vocabulário de delegado do Camargo – ou sei lá o que estava na portaria do prédio me esperasse.
Enquanto trocava de roupa lembrei-me do episódio escroto da avenida.
Ontem, durante minha caminhada fui interrompido por um mendigo, foi enquanto eu esperava o semáforo fechar. Começou falando do tempo e de como as noites estavam frias em São Paulo, prosseguia com aquela ladainha -o tempo do semáforo parecia uma eternidade – me falava sobre o frio da madrugada anterior, sobre sua busca por um abrigo em todos os albergues do centro.
“O senhor podia me arrumar um casaco ou alguma coisa pra eu vestir. Comida tem, os padreco não deixa faltar. Eu tomo as sopas deles na rodoviária”, explicou.
Os padres são os franciscanos, distribuem sopa toda noite no Tietê, já havia reparado uma noite em que voltei mais tarde da agência, uma fila enorme de indigentes aguardando comida. O sinal abriu e o mendigo disse que passaria no condomínio para pegar sua roupa, como estava querendo me livrar daquele oratório, concordei com um gesto de cabeça e prossegui.
E não é que o filha da puta realmente me viu sair daqui e hoje veio com essa história de paletó. E onde é que eu iria arrumar um paletó numa manhã de domingo. Abri o guarda-roupa, e só as jaquetas jeans, as calças também jeans, algumas blusas de lã (as que a minha mãe faz todo inverno), e escolhi uma que pudesse aquecer o velho-carente. Não pude deixar de imaginar a cara da minha mãe se soubesse que escolhi as tais blusas.
Desci e falei com o mendigo. Ele pareceu não gostar muito da blusa e me pediu um trocado pra comprar um paletó, um que ele havia encontrado num brechó aqui perto.
Barbaridades do dia-a-dia parecem escolher data para acontecer e esse é só o começo do meu dia de FOLGA.
Valter Cavallari
*A página Ficção do Feijão com Farofa nasce para suprir a necessidade de publicar textos resultado de um projeto literário do qual fiz parte há alguns anos. Desse projeto, ficaram textos inéditos e a vontade de continuar a desenvolver histórias sobre o personagem criado naquela época. Espero que gostem e acompanhem as histórias do Valter Cavallari, um publicitário de meia idade, solteiro convicto, reclamão, mal humorado. Acompanhem!
Café derramado e cartas de amor
No meio da tarde todos os meus pensamentos se esvaem como que numa descarga. Você chega sorrateiro. A cabeça vazia é um convite para sua entrada. Desfila, faz pose, graceja. O esforço em recuperar a razão revela-se inútil. Clamo para que meu raciocínio volte, para que minha cabeça te expulse…
Título, linha fina, texto justificado, publicador, acessos, correção, login, senha, comentários, foto, photoshop, legenda, correção.
O coração segue apertado. Penso no seu presente de aniversário, na tua ausência no meu, no meu não presente. Talvez devesse dar o troco. A vontade de poder ver sua expressão ao receber o presente é maior que o desejo de punição.
Dead line, correção, contas, resposta, número, leitores, tema, cartão, café, malboro, você.
Levanto-me e sigo até a mesa do café. Derramo um pouco do líquido quente em meu braço, que logo estampa uma mancha vermelha. Esqueço o café. Enxugo o braço e volto ao computador. Agora, só o arder da queimadura consome minha concentração.
Qeima, arde, dói, queima, arde, dói, queima, arde, dói, queima, arde, dói, queima, queima, queima.
Meus amigos são contra o presente. Talvez, não tenha conseguido explicar que o presente é pra mim, que preciso de um sorriso teu pra também sorrir.
Cinco horas, caminho de casa, mochila, caminhada, descarga de pensamentos, alternância de desgraças e felicidades, adrenalina.
Em casa. Ligo computador, televisão e rádio. Tiro o celular da bolsa e coloco no modo vibrar, acomodo o aparelho no meu colo. O ruído dos eletrônicos me leva a uma espécie de transe. Perco os sentidos por alguns instantes.
O nada, o nada, o nada, o nada, nada, o nada, nada, o nada, nada, nada, nada, vazio, vazio, vazio, o vazio.
Penso numa carta de amor, corro para o quarto em busca de caderno e caneta. Sento de fronte para a gaveta. Arremesso tudo o que não seja caderno e caneta para trás. Com material em mãos, sigo novamente para sala. Tateio o controle da televisão em baixo da cabeça do gato. O bichano, com olhar de desprezo, irrita-se com a retirada do objeto que lhe servia de travesseiro. Pressiono o botão MUTE da tv, coloco o rádio no modo CD, tiro o escolhido da caixa com cuidado, coloco no prato. “Cartas de amor”, era o que queria ouvir enquanto escrevia a minha, na tentativa prorrogar o fim..
Cartas de amor
(Maria Bethânia)
“Todas as cartas de amor são Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem Ridículas.
Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras, Ridículas.
As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser Ridículas.
Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso Cartas de amor Ridículas.
Afinal, só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor,
É que são Ridículas.
Porém não tive coragem de abrir a mensagem
Porque, na incerteza, eu meditava
Dizia: “será de alegria, será de tristeza?”
Quanta verdade tristonha
Ou mentira risonha uma carta nos traz
E assim pensando, rasguei sua carta e queimei
Para não sofrer mais
Quanto a mim o amor passou
Eu só lhe peço que não faça como gente vulgar
E não me volte a cara quando passa por si
Nem tenha de mim uma recordação em que entre o rancor
Fiquemos um perante o outro
Como dois conhecidos desde a infância
Que se amaram um pouco quando meninos
Embora na vida adulta sigam outras afeições
Conserva-nos, caminho da alma, a memória de seu amor antigo e inútil
Todas as cartas de amor são Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem Ridículas.
Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras, Ridículas.
As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser Ridículas.
Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso Cartas de amor Ridículas.
Afinal, só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor,
É que são Ridículas.
Porém não tive coragem de abrir a mensagem
Porque, na incerteza, eu meditava
Dizia: “será de alegria, será de tristeza?”
Quanta verdade tristonha
Ou mentira risonha uma carta nos traz
E assim pensando, rasguei sua carta e queimei
Para não sofrer mais
Quanto a mim o amor passou
Eu só lhe peço que não faça como gente vulgar
E não me volte a cara quando passa por si
Nem tenha de mim uma recordação em que entre o rancor
Fiquemos um perante o outro
Como dois conhecidos desde a infância
Que se amaram um pouco quando meninos
Embora na vida adulta sigam outras afeições
Conserva-nos, caminho da alma, a memória de seu amor antigo e inútil”
Carta pronta. Rezo pra que não seja o fim.
…,…,…,…,…,…,…,…,…,…,…,…,…,…,…,…,…,…,…,…,…,…,…,…,…,…,…,…,…,
…,…,…,…,…,…,…,…,…,…,…,…,…,…,…,…,…,…,…,…,…,…,…,…,…,…
Cabeça vazia, você vem de novo. Isso dói. Desfila, desdenha dos meus olhos marejados… Ao som de Bethânia, acendo o cigarro pelo filtro, choro, jogo fora e nada mais faz sentido.
Para que o ar entre de novo em meus pulmões arrasto-me até a cozinha em busca de uma caneca de café. A cafeteira está ligada e conserva a bebida num estado pré-fervura. Desencaixo a jarra do aparelho, encosto seu bico na caneca e viro até que depois de cheia ela derrame, queime e você vá.
Letícia Sabatella
Chegou ao trabalho ofegante. A caminhada de vinte minutos avermelhou-lhe as bochechas. Em frente ao prédio, encarou o cigarro que queimava por entre seus dedos. Lembrou-se do site simulador dos efeitos do cigarro no pulmão de que falara a amiga. Na mesa do bar, na terça, preocupada, explicou-lhe:
“ Você preenche alguns dados e o simulador mostra como tá o seu pulmão. O meu tá escuro em cima, sabe?”, desenhava o pulmão no ar. Continuava, “e o cinza se esfumaçava pelo meio e parte de baixo”, dizia enquanto pintava com o dedo o que a pouco fora contornado.
O medo do alcatrão, nicotina e companhia se esvaiu com a fumaça da última tragada. Mostrando a bituca ao porteiro, disse:
– Seu Oswaldo, os de filtro branco já não me adiantam.
O porteiro concordou com a cabeça e continuou a separar as cartas.
Tocou o interfone, subiu as escadas, entrou, disse bom dia, ajeitou a bolsa na mesa, ligou o computador antes de sentar, sentou, consultou os sites de costume, respondeu e mails, levantou pra ir ao banheiro, tomou café, sentou novamente e respirou fundo.
Pela primeira vez desde que acordara, respirou fundo. Sentiu frio, sentiu as mãos suarem, sentiu medo, sentiu saudade, sentiu o coração disparar.
Quis ligar pra ele e dizer eu amo você. Quis ligar pra mãe e dizer que sentia falta do cheiro dela. Quis ligar pra amiga e pedir pra que ela nunca a deixasse só.
Não ligou. Não disse nada a ninguém. Continuou mecanicamente o trabalho até que o relógio a libertasse pro caminho de casa. Não parou no bar de costume. Parou na banca, comprou a revista da semana, dobrou-a, e seguiu com a Letícia Sabatella em baixo do braço. Chegou ofegante, ascendeu o cigarro, agora o de filtro amarelo.
– O simulador que vá a merda.
Castelo dos Quatro
Antes que ele pudesse acomodar todas as malas no carro a filha mais velha planejava como ficaria o quarto de sua mãe sem a cômoda e a sapateira que ele levara. Não teve despedida. Não havia razão para despedidas. Ele havia partido há anos… Mas voltava toda noite.
Nos raros dias que chegava cedo, tomava banho enquanto jantavam, jantava quando já estavam vendo TV, ouvia seus CDs, no carro, quando, com a mãe, as filhas dividiam os acontecimentos do dia-a-dia.
Ia pra cama tarde, mas não sem antes passar no quarto das meninas. Velava por instantes o sono das filhas. Beijava a bochecha da primeira, acariciava seus cabelos, resmungava uma oração e molhava o rosto branco da garota com suas lágrimas. Repetia o ritual na cama ao lado, a da caçula.
Imóvel, a primeira, fingia sono profundo, esperava toda noite o raro momento de fragilidade do pai e alimentava-se dele. Ouvi-o encostar a porta e para o nada dizia baixinho: _ Boa noite, pai.
Quando o velho decidira não ser mais só um corpo presente, um cheiro, um chinelo que se arrastava pelo corredor, uma voz a reclamar pelo quintal, não entendera. O pai tentou mais de uma vez sem sucesso explicá-la os motivos que o levaram a decisão. Na última vez, um dia antes da partida, sentado à mesa da cozinha, dizia-lhe sobre sua necessidade de ser feliz. Compenetrada, com a tarefa de ariar a panela onde, a pouco fora cozido o feijão, a garota que ainda o tinha como herói não deixava que as lágrimas escorressem.
Na pia, manteve-se de costas por não conseguir encará-lo. Seu olhar a faria lembrar todas as promessas do castelo intocável. “Nós quatro, sempre”,em tom profético, ouvia- o dizer durante toda a sua infância . Ela acreditara, e ele se foi… Mas continuava a voltar toda noite. No portão, todas as noites, jurava às filhas seu amor eterno e incondicional. “O papai tá aqui e o meu amor maior é pra vocês”, repetia ele.
Com o passar do tempo ele já não voltava com tanta freqüência, nem a filha mais velha habitava o “Castelo dos Quatro”, o amor maior, talvez, tenha escapulido pra outros ‘alguéns’… Ela ainda acorda procurando o afago e teima em enxugar seu rosto seco. Passa o tempo a imaginá-lo sentado na beirada de outra cama, a derramar as lágrimas que foram dela, por outra criança. Lembra-se ainda do instante da porta.
– Boa noite, pai.
Borboleta ou mariposa?
Estava insólita recostada na parede ao lado do quadro da Audrey Hepburn. Despejei meia dúzia de palavrões. Sim, porque eu realmente não precisava de um presságio de mau agouro no meu quarto. Sem a conhecer, sem ao menos saber seu nome acusei sua mãe de promíscua. Pois é, faço parte da metade da população mundial que sente prazer em implicar. Xingar a mãe do sujeito é sempre um bom começo, não?
–Filha da puta. Tô ligada que você veio aqui pra me irritar.
Era manhã e eu ainda nem dormira. Cheguei com o sol. Deitada, pensava…O cheiro dele em meu corpo levava o pensamento e trazia a recordação de horas passadas.
A coisa continuava ali e parecia assistir meus pensamentos. É, eu penso cinematograficamente. Achei o filme não apropriado aquela espécie e nem de acordo com a sua faixa etária. Pausei e:
– Tá, já sei… Você ta aqui e precisamos conversar. Vai, manda? Você é o espírito de alguém da família, uma assombração? Vai, eu tô me cagando de medo, mas vamos lá.
Tentei uma conversa. Na verdade, não sei dizer se configurou um diálogo. Quis saber o que a trazia ao meu aposento. Disse-lhe que se tivesse asa não estaria perdendo meu tempo no quarto de uma desconhecida. Visitaria locais mais intessantes. A bicha ignorou-me novamente.
Confessei sentir inveja de seu corpo. Não que ela estivese em sua melhor forma. Ainda que, com quilos acima do peso, considerava-me mais atrente. Invejei, na verdade, as possibilidades que o corpo dela trazia.
Sempre achei tão precário esse negócio de duas pernas e: péantipé, péantipé, péantipé. Coisa chata!
O caso é que não respondia coisa alguma. E não me venha com essa de sinais. Nunca fui boa com isso. Ou é o verbo ou nada.
Não quis falar, beleza. Quando, na noite desse mesmo dia, já há mais de 24 horas acordada tentei dormir, pronto. Banho, quarto, luz apagada, lençol limpinho, pá… E não é que a lazarenta deu pra movimentar as asinhas, que batiam no teto, e não me deixavam dormir?
– Qual é? Necessidades fisiológicas. Comer, dormir, saca?
Parou, na outra parede agora. Meu primeiro ímpeto foi dar cabo aquela vida rídicula, a dela. Pois é, mas aí me veio o lance daquilo ser alminha de alguém. Não que eu acredite realmente nesse tipo de coisa, mas vai que…
Assim se passaram três dias. Sempre com aquele jeito idiota. A cada período do dia em uma parede.
Nem pra se apresentar, não serviu a infame criatura. Achei que tinha cara de Borboleta e assim foi.. Disseram-me que se tratava de uma Mariposa, mas enfim… Qual é mesmo a diferença entre uma e outra?
Continuei chamando de Borboleta, era guerra não era? Se me chamassem de Patrícia ao invés de Priscila teria indo embora. Foi? Claro que não. “Gente” cuja existência é desnecessária costuma agir assim.
A situação no terceiro dia tornara-se insustentável. Chegei no quarto metendo o pé na porta.
– Escuta aqui coisinha do capeta ou você se manda ou …
Uma das lâmpadas que eu pensava estar queimada piscou.
– Tá certo o Dona Mariposa, fica aí, de boa. Mas só faça o favor de manter o silêncio, ok?
Nada. A desgraçada tinha idéia fixa – a de me tirar do sério – resolvera agora dar razantes sobre a minha cabeça. Coisa muito agradável, vocês podem imaginar? Fingi que nada acontecia. Foi quando a babaca pousou na janela.
–Há,há, perdeu play boy.
Abri com tudo e assomprei. Ufa, livre!
Pra não dizer que não falei do Ulysses
O noticiário do último mês o afligia. Não o suficiente para atrapalhar sua rotina. Sim, porque continuava a acordar às 7h. Arrastava o chinelo pelo corredor até chegar à cozinha. Requentava o café da madrugada. Às vezes, passava um novo, no coador de pano. Ficava mais saboroso, segundo ele.
A xícara ainda com o resto de açúcar de ontem. Algumas formigas passeavam por ali. Ele confundia as pequeninas com resto de pó e aproveitava para adoçar a bebida nesta mistura formiga-açúcar.
Botava a cadeira no quintal, no solzinho da manhã. Lá contava ao cachorro todas as notícias que ouvira no rádio mais cedo.
Nos primeiros dias da queda do 447 da Air France não podia aceitar que :
– Aquele tanto de gente não foi encontrada? Nem uns pedacinhos do povo?
Relembra o cachorro sobre o acidente da Gol, o da TAM…
– Sabe, Sabão (o cachorro) o que eu não me conformo é com a morte do Ulysses. Você acredita que até hoje não acharam o corpo?
Ulysses, Dona Mora (sua esposa), o senador Severo Gomes, a esposa e o piloto morreram num acidente de helicóptero em Angra dos Reis, em 1992. Todos os corpos, menos o de Ulysses foram encontrados.
Alguém me avisou
A dose da amarelinha já sobre o balcão. Pandeiro batendo devagarzinho.
De saia rodada, sandália de coro, meias vermelhas, flor branca de crochê na cabeça. Existia só assim.
A garganta agora quente. A primeira dose aquecia o corpo e aliviava a mente.
O sorriso era inegável. A combinação do que a fazia feliz estava ali.
Sim, a felicidade de uma noite. A única possível para ela. Só nessa, de uma noite, conseguia acreditar.
Sambava miudinho, olhando pro pés, como de costume. Não era como as outras. Não dançava para atrair os homens. Menos para chamar atenção das mulheres. Assim, sem querer, sem saber, provocava encanto neles e a ira delas.
O sorriso era bobo, a cabeça tão baixa que o queixo encostava-se ao peito. O que ia por dentro traduzido em movimento. O samba dela era assim. Graciosa e desengonçada ao mesmo tempo.
“Foram me chamar. Eu estou aqui, o que há…”
Mais uma dose.
– É a amarelinha. Isso, essa aí.
Bebeu de uma vez, que era pra sentir a música de dentro.
“Eu vim de lá, eu vim de lá pequenininho
Mas eu vim de lá pequenininho”
Pede cerveja. Gostava de tomar depois da cachaça. Descia mais fácil. A garrafa em uma mão, o cigarro na outra. Olhando por entre os cabelos procurava um parceiro pra dança.
Ele já em busca daqueles olhos há algum tempo. Cruzou.
Ele alto, ela pequena, ela branca, ele negro.
– Dança comigo, moça.
Encostada no peito dele obedecia os versos de Dona Ivone Lara que pediam:
“Alguém me avisou pra pisar nesse chão devagarinho.”
Ofegantes, resmungavam a letra. Sorrisos se encontravam a cada giro.
“Sempre fui obediente. Mas não pude resistir. Foi numa roda de samba. Que juntei-me aos bambas. Pra me distrair”
Rodavam. Não perdiam o passo. Comunhão. Um só.
“Quando eu voltar na Bahia. Terei muito que contar. Ó padrinho não se zangue. Que eu nasci no samba. E não posso parar.”
Só enxergavam um ao outro. Para ouvir, só a música.
“E não posso parar. Foram me chamar. Eu estou aqui, o que é que há”
As mãos na cintura dela. Juntou. Cochichou algo, que ela preferiu não ouvir. Sabia, no fundo, que ele tentaria estragar o final com obviedades. O abraçou ternamente. Beijou seu rosto e se despediu.
“Foram me chamar. Eu estou aqui, o que é que há”
Jornalista. Ávida por boas histórias e certa de que elas acontecem a todo instante bem próximas a mim.
Personagens da vida real serão os cozinheiros desse feijão com farofa. 