Letícia Sabatella
Chegou ao trabalho ofegante. A caminhada de vinte minutos avermelhou-lhe as bochechas. Em frente ao prédio, encarou o cigarro que queimava por entre seus dedos. Lembrou-se do site simulador dos efeitos do cigarro no pulmão de que falara a amiga. Na mesa do bar, na terça, preocupada, explicou-lhe:
“ Você preenche alguns dados e o simulador mostra como tá o seu pulmão. O meu tá escuro em cima, sabe?”, desenhava o pulmão no ar. Continuava, “e o cinza se esfumaçava pelo meio e parte de baixo”, dizia enquanto pintava com o dedo o que a pouco fora contornado.
O medo do alcatrão, nicotina e companhia se esvaiu com a fumaça da última tragada. Mostrando a bituca ao porteiro, disse:
– Seu Oswaldo, os de filtro branco já não me adiantam.
O porteiro concordou com a cabeça e continuou a separar as cartas.
Tocou o interfone, subiu as escadas, entrou, disse bom dia, ajeitou a bolsa na mesa, ligou o computador antes de sentar, sentou, consultou os sites de costume, respondeu e mails, levantou pra ir ao banheiro, tomou café, sentou novamente e respirou fundo.
Pela primeira vez desde que acordara, respirou fundo. Sentiu frio, sentiu as mãos suarem, sentiu medo, sentiu saudade, sentiu o coração disparar.
Quis ligar pra ele e dizer eu amo você. Quis ligar pra mãe e dizer que sentia falta do cheiro dela. Quis ligar pra amiga e pedir pra que ela nunca a deixasse só.
Não ligou. Não disse nada a ninguém. Continuou mecanicamente o trabalho até que o relógio a libertasse pro caminho de casa. Não parou no bar de costume. Parou na banca, comprou a revista da semana, dobrou-a, e seguiu com a Letícia Sabatella em baixo do braço. Chegou ofegante, ascendeu o cigarro, agora o de filtro amarelo.
– O simulador que vá a merda.
Jornalista. Ávida por boas histórias e certa de que elas acontecem a todo instante bem próximas a mim.
Personagens da vida real serão os cozinheiros desse feijão com farofa. 