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Café derramado e cartas de amor

março 30, 2010
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No meio da tarde todos os meus pensamentos se esvaem como que numa descarga. Você chega sorrateiro.  A cabeça vazia é um convite para sua entrada. Desfila, faz pose, graceja. O esforço em recuperar a razão revela-se inútil.  Clamo para que meu raciocínio volte, para que minha cabeça te expulse…

Título, linha fina, texto justificado, publicador, acessos, correção, login, senha, comentários, foto, photoshop, legenda, correção.

O coração segue apertado. Penso no seu presente de aniversário, na tua ausência no meu, no meu não presente. Talvez devesse dar o troco. A vontade de poder ver sua expressão ao receber o presente é maior que o desejo de punição.

Dead line, correção, contas, resposta, número, leitores, tema, cartão, café, malboro, você.

Levanto-me e sigo até a mesa do café. Derramo um pouco do líquido quente em meu braço, que logo estampa uma mancha vermelha. Esqueço o café. Enxugo o braço e volto ao computador. Agora, só o arder da queimadura consome minha concentração.

Qeima, arde, dói, queima, arde, dói, queima, arde, dói, queima, arde, dói, queima, queima, queima.

Meus amigos são contra o presente. Talvez, não tenha conseguido explicar que o presente é pra mim, que preciso de um sorriso teu pra também sorrir.

Cinco horas, caminho de casa, mochila, caminhada, descarga de pensamentos, alternância de desgraças e felicidades, adrenalina.

Em casa. Ligo computador, televisão e rádio. Tiro o celular da bolsa e coloco no modo vibrar, acomodo o aparelho no meu colo. O ruído dos eletrônicos me leva a uma espécie de transe. Perco os sentidos por alguns instantes.

O nada, o nada, o nada, o nada, nada, o nada, nada, o nada, nada, nada, nada, vazio, vazio, vazio, o vazio.

Penso numa carta de amor, corro para o quarto em busca de caderno e caneta. Sento de fronte para a gaveta. Arremesso tudo o que não seja caderno e caneta para trás. Com material em mãos, sigo novamente para sala. Tateio o controle da televisão em baixo da cabeça do gato. O bichano, com olhar de desprezo, irrita-se com a retirada do objeto que lhe servia de travesseiro. Pressiono o botão MUTE da tv, coloco o rádio no modo CD, tiro o escolhido da caixa com cuidado, coloco no prato. “Cartas de amor”, era o que queria ouvir enquanto escrevia a minha, na tentativa prorrogar o fim..

Cartas de amor
(Maria Bethânia)

“Todas as cartas de amor são Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem Ridículas.
Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras, Ridículas.
As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser Ridículas.
Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso Cartas de amor Ridículas.
Afinal, só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor,
É que são Ridículas.
Porém não tive coragem de abrir a mensagem
Porque, na incerteza, eu meditava
Dizia: “será de alegria, será de tristeza?”
Quanta verdade tristonha
Ou mentira risonha uma carta nos traz
E assim pensando, rasguei sua carta e queimei
Para não sofrer mais
Quanto a mim o amor passou
Eu só lhe peço que não faça como gente vulgar
E não me volte a cara quando passa por si
Nem tenha de mim uma recordação em que entre o rancor
Fiquemos um perante o outro
Como dois conhecidos desde a infância
Que se amaram um pouco quando meninos
Embora na vida adulta sigam outras afeições
Conserva-nos, caminho da alma, a memória de seu amor antigo e inútil
Todas as cartas de amor são Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem Ridículas.
Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras, Ridículas.
As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser Ridículas.
Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso Cartas de amor Ridículas.
Afinal, só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor,
É que são Ridículas.
Porém não tive coragem de abrir a mensagem
Porque, na incerteza, eu meditava
Dizia: “será de alegria, será de tristeza?”
Quanta verdade tristonha
Ou mentira risonha uma carta nos traz
E assim pensando, rasguei sua carta e queimei
Para não sofrer mais
Quanto a mim o amor passou
Eu só lhe peço que não faça como gente vulgar
E não me volte a cara quando passa por si
Nem tenha de mim uma recordação em que entre o rancor
Fiquemos um perante o outro
Como dois conhecidos desde a infância
Que se amaram um pouco quando meninos
Embora na vida adulta sigam outras afeições
Conserva-nos, caminho da alma, a memória de seu amor antigo e inútil”

Carta pronta. Rezo pra que não seja o fim.

…,…,…,…,…,…,…,…,…,…,…,…,…,…,…,…,…,…,…,…,…,…,…,…,…,…,…,…,…,
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Cabeça vazia, você vem de novo. Isso dói. Desfila, desdenha dos meus olhos marejados… Ao som de Bethânia, acendo o cigarro pelo filtro, choro, jogo fora e nada mais faz sentido.

Para que o ar entre de novo em meus pulmões arrasto-me até a cozinha em busca de uma caneca de café. A cafeteira está ligada e conserva a bebida num estado pré-fervura. Desencaixo a jarra do aparelho, encosto seu bico na caneca e viro até que depois de cheia ela derrame, queime e você vá.

2 Comentários leave one →
  1. Nando Martinelli Link Permanente
    abril 6, 2010 5:45 pm

    Cara… lho!

    Melhor definição,não achei, parabéns, é pouco, aplausos, só alimento para o ego!

    Como descrever, talvez uma lagrima a percorrer o caminho da face até os lábios e se transformar nas palavras, transcritas aqui como se fossem psicografadas por uma alma sem alento, casando um motivo para se encontrar após uma tentativa de amor…

    Pri, aceita uma canelinha, uma boa forma de adoçar a vida…

    Bjokas

  2. abril 23, 2010 3:07 am

    amor vício. sobra a ressaca quando não se está entorpecido.

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