1 – Valter em: Dia de folga
*Ficção
Minhas manhãs se tornaram um caos desde que me tornei publicitário. Hoje acordei com o Camargo, o porteiro, no interfone.
– Ô seu Valter tem um elemento aqui em baixo querendo falar com o senhor. Ele disse que veio buscar uma encomenda, um paletó que o senhor havia prometido a ele.
– O quê ? Paletó ? Camargo eu nem isso…
– O senhor desculpa incomodar, mas o sujeito insistiu muito.
Em um suspiro pedi pra que o “elemento”, “sujeito”- não suporto esse vocabulário de delegado do Camargo – ou sei lá o que estava na portaria do prédio me esperasse.
Enquanto trocava de roupa lembrei-me do episódio escroto da avenida.
Ontem, durante minha caminhada fui interrompido por um mendigo, foi enquanto eu esperava o semáforo fechar. Começou falando do tempo e de como as noites estavam frias em São Paulo, prosseguia com aquela ladainha -o tempo do semáforo parecia uma eternidade – me falava sobre o frio da madrugada anterior, sobre sua busca por um abrigo em todos os albergues do centro.
“O senhor podia me arrumar um casaco ou alguma coisa pra eu vestir. Comida tem, os padreco não deixa faltar. Eu tomo as sopas deles na rodoviária”, explicou.
Os padres são os franciscanos, distribuem sopa toda noite no Tietê, já havia reparado uma noite em que voltei mais tarde da agência, uma fila enorme de indigentes aguardando comida. O sinal abriu e o mendigo disse que passaria no condomínio para pegar sua roupa, como estava querendo me livrar daquele oratório, concordei com um gesto de cabeça e prossegui.
E não é que o filha da puta realmente me viu sair daqui e hoje veio com essa história de paletó. E onde é que eu iria arrumar um paletó numa manhã de domingo. Abri o guarda-roupa, e só as jaquetas jeans, as calças também jeans, algumas blusas de lã (as que a minha mãe faz todo inverno), e escolhi uma que pudesse aquecer o velho-carente. Não pude deixar de imaginar a cara da minha mãe se soubesse que escolhi as tais blusas.
Desci e falei com o mendigo. Ele pareceu não gostar muito da blusa e me pediu um trocado pra comprar um paletó, um que ele havia encontrado num brechó aqui perto.
Barbaridades do dia-a-dia parecem escolher data para acontecer e esse é só o começo do meu dia de FOLGA.
Valter Cavallari
*A página Ficção do Feijão com Farofa nasce para suprir a necessidade de publicar textos resultado de um projeto literário do qual fiz parte há alguns anos. Desse projeto, ficaram textos inéditos e a vontade de continuar a desenvolver histórias sobre o personagem criado naquela época. Espero que gostem e acompanhem as histórias do Valter Cavallari, um publicitário de meia idade, solteiro convicto, reclamão, mal humorado. Acompanhem!
Jornalista. Ávida por boas histórias e certa de que elas acontecem a todo instante bem próximas a mim.
Personagens da vida real serão os cozinheiros desse feijão com farofa. 