2 – Valter em: Por engano
*Ficção
Cheguei, tirei os sapatos, sentei no sofá e parei. Pretendia continuar assim até que algum dos meus sentidos fosse desapertado.
Divaguei que, talvez, a caminhada matinal estivesse me fazendo mal. Foi depois do chek-up a semana passada, dei ouvidos as regras de bem-estar do médico e comecei com essa bobagem. Além do cansaço mental ele incluiu na minha rotina o físico. Não precisava de mais nada.
A Laura espreguiça no centro da sala. Engraçado, ela parece estar como eu, esperando que algo a desperte. Está sentada em frente à porta, ao seu lado tem um envelope que só agora percebi. Era pequeno, em papel pardo, ali do sofá enxergava a letra corrida que apontava seu remetente.
A preguiça era tanta que sem sair do lugar tentava adivinhar quem teria enviado aquilo. Uma carta. Esse tipo de comunicação excluía grande parte das pessoas que conheço, pois estas teriam mandado um e-mail ou ligariam.
A gata continuava estática. Era sexta-feira a faxineira limpou o apartamento, deixei uma lista das coisas que ela não poderia mexer. Até onde pude conferir ela parece ter obedecido.
Lembrei que poderia estar com fome. Olhei o telefone sem fio na mesinha ao meu lado, liguei para pizzaria anunciada no folder que estava ali.
Em 20 minutos a campainha: era a pizza de atum com catupiry e o suco de uva. Paguei o entregador , agradeci, peguei a comida, entrei e pensei novamente na carta.
Acabei logo com o mistério que não mais me entretia. Abri rapidamente o envelope e corri aquelas linhas mecanicamente. Letra feminina, falava de um relacionamento que definitivamente nunca fiz parte. Ao final o nome: Pedro. Voltei ao envelope, apto 319 era para o vizinho de cima. O porteiro confundiu-se. Alívio… A patética carta de amor não era para mim. Fiz um bilhete explicando o acontecido ao destinatário e anexei à carta, em seguida interfonei para o Camargo da portaria:
– Quem é?
– Ô seu Valter é o Camargo.
– Camargo,você entregou por engano uma carta do 319 no meu apartamento.Você pode subir para ver?
Valter Cavallari
*A página Ficção do Feijão com Farofa nasce para suprir a necessidade de publicar textos resultado de um projeto literário do qual fiz parte há alguns anos. Desse projeto, ficaram textos inéditos e a vontade de continuar a desenvolver histórias sobre o personagem criado naquela época. Espero que gostem e acompanhem as histórias do Valter Cavallari, um publicitário de meia idade, solteiro convicto, reclamão, mal humorado. Acompanhem!
Jornalista. Ávida por boas histórias e certa de que elas acontecem a todo instante bem próximas a mim.
Personagens da vida real serão os cozinheiros desse feijão com farofa. 