3 – Valter em: Final de ano e tormentos de família
Passei o dia inteiro com a voz dela ecoando em meus pensamentos mesmo sabendo que ela faz com essa intenção.
– Filho, pôxa vida, seus irmãos estão tão longe… Você que seria o único que poderia…Olha, eu e seu pai estamos velhos, e talvez não tenhamos muito tempo e…
Ela sempre teve um efeito terrível sobre mim; talvez seja a única mulher que me faça mudar de planos. o problema é que desta vez estava tudo combinado, todo mundo de saco cheio de Natal em família e este ano ficaria tudo porminha conta. Justo eu que não faço a mínima ideia de como preparar essas coisas.
Nem um enfeite neste apartamento, nem um pisca-pisca irritante, uma árvore então… Meu Deus! E tem a comida, os presentes, o amigo secreto. Ah, e tem o presente da Claudinha!
É, pensando bem, se eu tivesse ido pra Cerquilho, eles estão velhos e… Não dá pra mudar o combinado agora, é ridículo pensar que esse possa ser o último natal dos velhos, afinal está tudo bem com eles.
Encomendo uma árvore de Natal, deve ter algum serviço de entrega, peço também aquela ceia pronta que o restaurante aqui embaixo anunciou. As bebidas tenho aqui mesmo. É isso, é isso - repete andando de uma ponta a outra do corredor.
[o telefone]
– Valtinho, você pelo menos almoça conosco amanhã, né filho!
Era a única coisa que eu poderia ceder naquele momento e, depois de uma noite inteira com o pessoal da agência, ter que viajar por que: Ai Valtinho, mamãe tem saudade! Ela me trata como o mesmo moleque que saiu do interior há 25 anos. O problema é responder como o Valtinho dela…E eu faço isso.
No shopping compro algo pra Cláudia, acho que um perfume. Eles chegam às nove, a ceia e o garçom às oito, a árvore compro no shopping…Ainda tem ração para Laura.
Jornalista. Ávida por boas histórias e certa de que elas acontecem a todo instante bem próximas a mim.
Personagens da vida real serão os cozinheiros desse feijão com farofa. 