…que fosse vida
E quando já não mais acreditou, exatamente quando desistiu…
Não desistiu de uma vez, foi lento seu processo. Nos momentos de fraqueza tentava, em vão, recuperar sensações dos momentos de paixão, abandonava o intento tão logo percebesse um corpo já sem memória. Preencheu-se de boas conversas, de botecos, de risadas e disse NÃO ao Amor.
Seguia alimentando-se de pequenas e deliciosas alegrias, ingeridas a boas goladas nos botecos da cidade, em papos intermináveis sobre arte e política. Sabia aproveitar os prazeres de uma cama vazia. Quis planejar um futuro sem mais investidas no Amor e, protegida por um edredon, sonhara com um canto seu, que tivesse sofá vermelho na sala, no quarto um colchão sem cama – não suportava os limites impostos por ela -, pela casa os livros da vida toda, um gato como companhia, na cozinha a cafeteira e uma coleção de canecas bacanas. Era só! Não deixou espaço para mais nenhum parágrafo depois do ponto final.
Mas o AMOR, esse filho da puta, chegou e foi logo rasurando todo o texto, puxando tópicos, fazendo planos. Ela, justo ela, que já havia esperado tanto. Em sábados ensolarados vestia-se para Ele. Eram coloridos os vestidos, o cabelo solto, as sandálias lhe adornavam os pés delicados… Esperava-o para o almoço e desistia tão logo percebesse a tarde chegar e a fome apertar. Em noites de sexta-feira se aprontava perto de oito da noite. Em algumas para ir ao cinema, em outras para um jantar e em outras ainda, quando sentia vontade de dançar, lhe esperava para irem a um samba qualquer. Ele nunca buzinou em sua porta, sua campainha nunca tocara … Em uma espécie de ritual desmanchava o cabelo, tirava toda a maquiagem, entrava nas roupas de guerra . As mais largas, as mais confortáveis, no pé calçava o all star vermelho e era com a mochila nas costas que seguia para uma noite inteira na bodega do bairro.
Finalmente o cavalheiro atrasado chegou e foi sem alarde. Está com ela agora e a faz melhor, apesar do medo dela, do jeito ranzinza que trata o atraso dele. Deixara os planos de uma vida sozinha para construir com ele uma vida , que fosse intensa, que fosse morna, que fosse algumas vezes preta e outras branca, que fosse também colorida, que fosse quente e fria, que fervesse , que fosse vida.
Jornalista. Ávida por boas histórias e certa de que elas acontecem a todo instante bem próximas a mim.
Personagens da vida real serão os cozinheiros desse feijão com farofa. 
Pri, meu amor, o seu TALENTO é um diamante que está sendo lapidado a cada dia que passa, tem um brilho que encantará a quantos lerem os seus escritos. Bjão do Cá.
Obrigada, Cá.
Gente grande.
Cresci. hehehe
“Mas o AMOR, esse filho da puta, chegou e foi logo rasurando todo o texto, puxando tópicos, fazendo planos”
Adooooro textos nessa levada. Ai Deus, agradeço todos os dias pelos amigos talentosos que tenho. Parabéns!
Orgulhosa por receber um elogio seu, Camila. Também te acho muito talentosa.